O “Faz-Tudo”

Existe uma profissão que, nos dias de hoje, é a mais subvalorizada. São os famosos “Faz-tudo”, os que tratam dos nossos problemas domésticos. Máquinas de lavar, frigoríficos, estores, fecha   duras, chuveiros e canalizações. Os mundialmente conhecidos como “Faz-tudo”. 

 

E porque é que eu digo que é uma profissão muito subvalorizada? A resposta é simples: porque é. São pessoas que, independentemente da sua formação académica, o contacto está guardado no telemóvel das pessoas com o seu primeiro nome mais a última coisa que repararam ao dono do telemóvel. Por exemplo: há um senhor que está na lista de contactos do meu pai como Jorge Torneira da Cozinha. 

Sempre que um “Faz-tudo” brinda o apartamento onde eu vivo com a sua presença, os meus pensamentos esbarram contra uma placa, tipo as placas publicitárias gigantes que vemos à entrada – ou à saída – do Algarve com uma só pergunta: será que este senhor que aqui está também resolve os problemas domésticos das pessoas famosas? 

Eu não me orgulho em contar isto que vou escrever, mas, só aos meus 15\16 anos de idade é que percebi que os ditos famosos também têm chatices para tratar. Sim, o Albano Jerónimo de certeza que já teve problemas deste género. Tipo, a Inês Aires Pereira de certeza já teve de chamar um senhor à casa dela para tratar da máquina de lavar. Porque os famosos são pessoas normais com problemas normais que aparecem na televisão ou na rádio ou que escrevem livros.

Esta ideia das pessoas reconhecidas precisarem de ajuda dos “Faz-tudo” faz-me viajar para uma realidade paralela onde existe uma sociedade secreta, do estilo dos Illuminati, onde apenas fazem parte poucos, mas bons, fazedores de todas as atividades domésticas.

Uma realidade onde a chuva não cai das nuvens, cai de chuveiros arranjados pelo Sr. Romeu Canalizador. As máquinas de lavar louça e roupa apenas são licenciadas pelo Sr.Marquês Máquinas da Cozinha. As fechaduras são todas patrocinadas pelo Sr. Vasco Fechaduras. Uma realidade onde todos pagam e devem ao Grande-Faz-Tudo, uma sociedade estruturada em forma de pirâmide, onde no topo está Ele, o Grande-Faz-Tudo. Os meros cidadãos ajustam contas com os chefes de secção: Sr. Romeu Canalizador, Sr.Marquês Máquinas da Cozinha e Sr. Vasco Fechaduras. Estes fazem questão de serem pagos – e bem pagos! – , através dos seus capangas: os “Remendadores”. Ou seja: pessoas – remendadores – chefes de secção – Grande-Faz-Tudo.

(Todos os nomes desta realidade paralela podem ser encontrados na lista telefónica do meu pai)

Voltando aos problemas desta realidade e voltando à premissa inicial. Os “Faz-Tudo” são a profissão mais subvalorizada. Na iminência de se vir a dar um apocalipse, de qualquer tipo, seja zumbis, vampiros ou o Pedro Pinto confundir o rabo do André Ventura com um Leitão e trincar-lhe o nalguedo e a labreguice começar a ser transmitida à velocidade semelhante à da Covid-19 e começamos a dar trincas uns aos outros, apenas os “faz-tudo” se safam. Porque? Porque fazem tudo.

Por acaso conhecem alguém que consegue desentupir a torneira, endireitar o cano e alargar a anilha? Pois, se não conhecem agora…imaginem durante um apocalipse.

Só um “Faz-Tudo”.

Nota de Autor.

Como podem observar, as ilustrações deste blog ganharam uma vida nova. Queria enviar uma palavra de agradecimento à ilustradora Madalena Costa por ter aceite o meu convite e saltar de cabeça para um penhasco onde o chão está cada vez mais longe. Quando temos hipóteses de trabalhar com amigos, talentosos, apenas uma coisa temos a fazer, aceitar.

Espero que continuem desse lado a ler as crónicas, que vão começar a ser muito mais divertidas (e mais bonitas aos olhos dos que apenas vêm os bonecos).