O Sujeito

 

Porque é que as histórias que    ouço as outras pessoas contarem são sempre muito mais engraçadas? Ou vice-versa? Porque é que os meus amigos dizem que as minhas histórias são sempre muito divertidas?

Mark Twain dizia que “Comédia é igual a Tragédia mais Tempo” e errado não estava. Antes de mais, é preciso dizer que Twain tem o seu quê de inteligência porque criou uma fórmula matemática em que palavras feitas de letras produzem gargalhadas. Ou seja: A+B= HAHAHA. Ou KAKAKA. Ou KSKSKSKS. Ou EHEHEHE. Conforme a faixa etária e\ou posses monetárias.

Há uns anos, quando li A doença, o sofrimento e a morte entram num bar, de Ricardo Araújo Pereira, apercebi-me pela primeira vez da genialidade de Twain. Porque, a primeira vez que vi letras numa equação matemática, produzi um som muito semelhante ao som que o meu primo de 2 anos produz quando alguém lhe faz cócegas: ri-me. 

A distância faz-nos rir. Querem um exemplo? Se no dia 1 de setembro de 1997 alguém fizesse uma piada sobre a morte da princesa Diana, ia correr mal, ninguém se ia rir. Podiam levar a mal e com razão porque era o dia seguinte ao fatal acidente. Mas, se disser, hoje, que a última coisa que passou pela cabeça da princesa Diana foi o rádio do carro, tem piada. Porquê? Porque se passaram quase 30 anos. Por isso, sim, Twain tem razão: Tragédia + Tempo = HAHAHA.

Mas sinto necessidade de adicionar uma parcela a essa equação matemática que explica o porquê das coisas nos fazerem rir. Sinto que é preciso adicionar a parcela Sujeito, do narrador, da pessoa que conta a história. Se estas três parcelas não estiverem certas, a equação dá erro. Já ouviram alguma vez que 2+2+couve-lombarda dá conta certa? Não. 

O exemplo da princesa Diana ilustra muito bem o que estou a dizer. Podia ser o vosso comediante favorito de todos os tempos a fazer uma piada no dia seguinte ao acidente que não ia resultar, ou então não ia resultar tão bem. A Tragédia e o Sujeito estão presentes, mas a Distância não. Se virmos um comediante a tentar fazer uma piada sobre o 11 de setembro, mas não tem um bom ritmo ou uma boa entrega, a piada estraga-se. A piada não tem piada. A Tragédia e a Distância estão presentes, mas o Sujeito não. Se for um comediante a contar a história de quando foi ao talho e já não havia pernas de frango, a equação dá erro. Falha porque o Sujeito e a Distância estão presentes, mas o facto de já não haver pernas de frango não é uma Tragédia (leia-se “tragédia” como “não tem graça”). Em todos estes casos, a piada perde-se.

O Sujeito, o narrador, o lesado da sua própria tragédia (leia-se “tragédia” como “história” ou “aventura”) é o que provoca um som que vai de um simples soprar com o nariz até ter cãibras na barriga de tanto rir. 

Na comédia, eu considero que nem a Mensagem, nem o Mensageiro são o que importa mais. O que importa é a mensagem Do mensageiro. Porque um não funciona sem o outro. Se a mensagem não tem piada, nenhum mensageiro consegue salvar a mensagem. Se o mensageiro não tem piada, nenhuma mensagem nos consegue pôr um sorriso. Por isso, sem me perguntarem qual é o mais importante, a Mensagem ou o Mensageiro, eu respondo que Sim.

Respondendo às perguntas iniciais: Porque é que as histórias que ouço as outras pessoas contarem são sempre muito mais engraçadas? Ou vice-versa? Porque é que os meus amigos dizem que as minhas histórias são sempre muito divertidas?

Há duas respostas.

De acordo com Mark Twain:

Aconteceu uma Tragédia (leia-se, novamente, “tragédia” como “história” ou “aventura”), acrescentou-se Distância. Resultado: Comédia.

De acordo com Miguel Cleto:

Aconteceu uma Tragédia (leia-se, novamente, “tragédia” como “história” ou “aventura”), acrescentou-se Distância e um Sujeito. Resultado: HAHAHAHAHA.  




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