Aos dias de hoje, todos os superpoderes que a Marvel e DC foram apresentando ao longo das suas longas e épicas batalhas contra vilões muito grandes e que fazem muito mal às pessoas são, digamos, overrated.
Eu digo isto porque padeço de uma condição daquelas condições mesmo condicionantes. Condição esta que faz repensar o sentido da vida. Sim, eu sou intolerante a lactose.
Para todos nós, que sofremos de intolerância a lactose, ninguém fica fascinado com um senhor que passa do tamanho de uma formiga para o tamanho de um camião com reboque em meio segundo. Ou com um senhor que, se ficar mesmo muito chateado, fica muito grande, verde e com as veias do pescoço muito salientes. Nós, os intolerantes, somos um público difícil para a Marvel.
Nada dessas carradas de CGI nos surpreendem. O que nos surpreende é conseguirmos comer um bom queijo de Azeitão acompanhado de um copo gigante de leite meio-gordo. Isto, sim, é a sétima arte, fuck cinema. Lactose, tu é que mereces um Oscar.

Eu era um grande adepto da sétima arte: a lactose. Sempre que conseguia consumia lactose. Quando era mais novo, sempre que me encontrava sozinho na cozinha, era o mais discreto possível para ninguém saber que lá estava, para saborear uma grande e recheada colherada de manteiga. Shame on me, mas eu gostava e era uma criança de 22 anos.
Mas, certo dia, o meu sistema decidiu de livre e espontânea vontade que nunca mais podia consumir lactose da mesma maneira. O sacana do meu sistema nem foi capaz de perguntar se eu aceitava os termos e condições, muito menos as cookies (porque as cookies eram de chocolate de leite).
No momento em que juntei as pontas soltas e percebi que era intolerante tive de começar a pesar as coisas que como. Não em gramas de proteínas, nem hidratos de carbono. Mas, sim, em consequências do consumo de lactose se justifica a grande e desnecessária limpeza da tripa e a tentativa de assassinato da louça da sanita.
Por exemplo, numa simples terça-feira não vale a pena ariscar cancelar todos os planos da quarta-feira seguinte e talvez de quinta. Mas na ceia de Natal vale a pena. Até serve de laxante para se conseguir enfardar que nem uma besta no dia 25.
E digo vos já, ainda bem que eu me autodiagnostiquei como intolerante a lactose em 2025. Aos dias de hoje e na sociedade civil em que vivemos, é fácil ser intolerante. Já existem tantas alternativas que já nem vale bem a pena ser intolerante. Antes, ser intolerante ao glúten, lactose e a mais coisas de que se pode ser intolerante, era uma guerra e um problema real que fazia coisas muito más aos interfolhos intestinais de qualquer intolerante.
Mas hoje é fácil. É tão fácil que até já me irrita a quantidade ridícula de alternativas ao leite. Era muito simples: se podias beber leite normal, bebias; se fosses intolerante a lactose, bebias leite sem lactose, ponto final. Qual é a necessidade de criarem uma louca lista e infinita de alternativas ao leite de vaca? Após uma breve pesquisa e sem grande rigor académico, encontrei muitas alternativas.
Leite de soja: rico em proteínas, sabor neutro, muito usado em cafés e receitas. Leite de amêndoas: leve, com sabor adocicado, baixo em calorias. Leite de aveia: cremoso, ótimo para cappuccinos e receitas; contém fibras. Leite de arroz: mais leve e adocicado, indicado para quem tem alergias múltiplas. Leite de coco: sabor marcante, usado em sobremesas e pratos tropicais. Leite de caju: textura cremosa, bom para molhos e receitas culinárias. Leite de avelã: sabor intenso, combina bem com chocolate. Leite de quinoa: opções menos comuns, mas nutritivas e ricas em minerais.
Esta loucura vai acabar quando? Paramos no quê? Onde é que estas pessoas traçam a linha? Por favor, acordem-me desta simulação quando isto acabar!

Se não acabar, deixam-me a dormir. É da maneira que não dou mais bufas.